Arco-íris completo sobre as Cataratas do Iguaçu vistas da passarela do lado brasileiro, no Parque Nacional do Iguaçu
VIICapítulo Histórias

Parque Nacional do Iguaçu: a história completa, de 130 milhões de anos até hoje

15 de agosto de 202621 min de leiturapor Wanderlei · Cadastur
130 miAnos de basalto
1939Criação do parque
185.262Hectares protegidos
80 mGarganta do Diabo

Existe um instante que se repete todo dia no mirante do lado brasileiro. A pessoa chega, vê a parede de água pela primeira vez, e fica quieta. Não tira foto. Não fala. Só olha. Depois de mais de dez anos levando gente até ali, a gente aprendeu que esse silêncio tem uma causa: o corpo entende antes da cabeça que aquilo é antigo demais para caber numa manhã de passeio.

E é mesmo. A água que cai naquele segundo atravessou o estado do Paraná inteiro para chegar. A rocha em que ela bate é mais velha que os Andes. E o fato de aquele lugar ainda existir — com floresta, com onça, com passarela aberta ao público — depende de um decreto assinado em 1939, de uma cavalgada de seis dias em 1916 e de uma estrada que foi fechada em 2001.

Este texto conta essa história inteira, em cinco atos: a pedra, o rio, a gente, o parque e a vida. Tudo com fonte — e, quando a fonte não sustenta um número, a gente diz isso em vez de inventar.

ATO · I

A pedra

137 milhões de anos atrás · quando a América e a África se separaram

Antes do rio, houve fogo

Nada nas Cataratas começa com água. Começa com lava.

Entre cerca de 137 e 127 milhões de anos atrás, no início do período Cretáceo, o supercontinente Gondwana estava se partindo — a peça que viraria a África se afastando da peça que viraria a América do Sul, e o oceano Atlântico Sul se abrindo no meio. A crosta se fraturou, e por essas fendas escapou lava basáltica em quantidade difícil de imaginar: os derrames da chamada Formação Serra Geral cobriram mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, com um volume estimado em torno de 650 mil quilômetros cúbicos. É uma das maiores manifestações vulcânicas conhecidas do planeta.

O resultado, embaixo dos nossos pés em Foz do Iguaçu, é um platô de basalto com cerca de 1 quilômetro de espessura. E ele não é um bloco só: é uma pilha de derrames, um em cima do outro, como camadas de um bolo escuro. Cada derrame tem base, meio e topo com estruturas diferentes — e essa diferença é a razão pela qual as Cataratas existem.

Parede de basalto das Cataratas do Iguaçu, com o degrau de rocha escura sob a cortina de água e blocos cobertos de vegetação no rio
fig. IO degrau é a assinatura da rocha: o topo frágil de um derrame se desmancha mais rápido que o miolo maciço do derrame de baixo.

Por que a água cai exatamente ali

Basalto não é uniforme. Quando a lava esfria, o topo do derrame fica cheio de bolhas e fraturas — é uma rocha mais frágil, que a água desmancha com relativa facilidade. Já o miolo esfria devagar e fica maciço, dividido em colunas verticais, quase como tábuas encostadas. A água leva embora o material fraco por cima e encontra o material duro por baixo. Aí ela para de escavar em profundidade e passa a escavar para trás. É assim que nasce um degrau — e um degrau com quilômetros de largura é uma catarata.

Faltava o empurrão. Ele veio do rio vizinho: em algum momento do Pleistoceno inicial, o rio Paraná aprofundou o próprio vale com força, e o rio Iguaçu, que deságua nele, se viu obrigado a se ajustar a um nível de base muito mais baixo, muito rápido. O ajuste foi violento. A pesquisa geológica sobre a incisão diferencial desses dois rios situa o nascimento das quedas entre 1,8 e 1,5 milhão de anos atrás.

A rocha em númerosValor
Idade dos derrames (Formação Serra Geral)~137 a 127 milhões de anos
Área coberta pelas lavasmais de 1 milhão de km²
Volume de lava estimado~650 mil km³
Espessura do platô de basaltocerca de 1 km
Idade das quedas d'água1,8 a 1,5 milhão de anos
Altura da Garganta do Diabocerca de 80 metros
Frente total de quedas~2,7 km (≈1,9 km na Argentina, ≈0,8 km no Brasil)

O número de saltos varia com a vazão — fala-se em 275, mas ele oscila entre cerca de 150 e 300 conforme o rio sobe ou desce.

Os saltos têm nome — e quase ninguém sabe quais

Falar em 275 quedas é falar da contagem total, incluindo os fiapos de água que aparecem e somem conforme o rio sobe. Mas os saltos grandes, os que têm nome próprio e placa, são 19. Cinco estão em território brasileiro; o resto é argentino. E os nomes contam história.

Lado brasileiro: cinco nomes da Primeira República

Os saltos do nosso lado foram batizados com nomes do período que se seguiu à Proclamação da República: Floriano, Deodoro e Benjamin Constant. Somam-se a eles o Santa Maria e o União. O maior deles é o Salto Floriano — e não é coincidência que o elevador panorâmico do parque desemboque exatamente de frente para ele. É a foto que praticamente todo mundo leva do lado brasileiro sem saber o nome do que fotografou.

Lado argentino: os nomes que você atravessa a pé

Do lado de lá você não olha os saltos de longe: caminha entre eles. Os dois circuitos de passarela levam o nome de cada queda, e o segundo maior salto do parque inteiro — assim classificado pelo próprio parque argentino — é o San Martín, aquele que fica em frente à ilha e recebe o bote do lado de lá.

OndeSaltos com nomePercurso
Circuito Superior (AR)Dos Hermanas · Ramírez · Bossetti · Adán · Eva · Guardaparque Bernabé Méndez · Mbiguá · San Martín1.750 m de percurso · ~90 min · 100% acessível em cadeira de rodas
Circuito Inferior (AR)Lanusse · Álvar Núñez (vista superior e inferior) · Chico · Dos Hermanas1.450 m de percurso (2.900 m ida e volta) · ~90 min · 70% acessível
Circuito Garganta (AR)Balcão da Garganta do Diabo1.100 m de ida + 1.100 m de volta · chega-se de Trem Ecológico da Selva · 100% acessível
Trilha das Cataratas (BR)Floriano · Deodoro · Benjamin Constant · Santa Maria · União~1,5 km de trilha com mirantes + elevador panorâmico

Nomes e medidas conferidos nos sites oficiais dos dois parques em 15 de agosto de 2026.

A Garganta do Diabo em números

Se existe um salto que resume o conjunto, é esse. A Garganta do Diabo é o ponto onde o rio inteiro parece se dobrar para dentro de si: um abismo em forma de U, para onde converge boa parte da água — cerca de metade da vazão do Iguaçu, segundo as descrições correntes. É também a fronteira entre os dois países passando exatamente dentro da névoa.

Garganta do DiaboMedida
Altura da quedacerca de 80 metros (descrição oficial da UNESCO)
Frente semicircular das Cataratascerca de 2.700 metros — 1,9 km na Argentina, 0,8 km no Brasil
Formato do abismoem U · as medidas mais citadas são ~150 m de largura por ~700 m de comprimento
Parte da vazão que passa por elacerca de metade do rio
Como se chega (lado argentino)Trem Ecológico da Selva + 1.100 m de passarela sobre o rio na ida, e os mesmos 1.100 m na volta
Do lado brasileirovista frontal do final da Trilha das Cataratas — é o cartão-postal panorâmico

Os 80 m e os 2.700 m vêm da ficha oficial da UNESCO. As dimensões internas do U circulam em várias fontes concordantes, mas não achamos um documento oficial que as chancele — por isso estão marcadas como “mais citadas”.

ATO · II

O rio

1.320 km na contramão · da Serra do Mar até a fronteira

O rio que atravessa o Paraná inteiro para cair aqui

Quase todo rio brasileiro grande corre para o litoral. O Iguaçu faz o contrário: nasce a poucos quilômetros do mar e passa a vida inteira fugindo dele.

As nascentes estão na Serra do Mar, na região metropolitana de Curitiba. Dois rios se formam ali — o Atuba e o Iraí — e o encontro dos dois, na divisa entre Curitiba e São José dos Pinhais, é o que se chama de marco zero do rio Iguaçu. Dali ele segue para oeste, atravessa o Paraná de ponta a ponta por cerca de 1.320 quilômetros, recolhe a água de boa parte do estado e chega à fronteira já enorme.

As Cataratas não são o fim da viagem: são o último degrau. Poucos quilômetros depois de cair, o Iguaçu encontra o rio Paraná — exatamente no ponto onde hoje ficam o Marco das Três Fronteiras e a divisa dos três países. Quem sobe no mirante do Marco no fim da tarde está olhando para a foz do rio que acabou de fazer o espetáculo.

A vazão: o número que muda o passeio

A vazão média histórica das Cataratas é de cerca de 1.500 m³/s — 1,5 milhão de litros por segundo. Esse é o retrato de cartão-postal: quedas cheias, névoa, arco-íris no meio da manhã. Mas média, aqui, engana: o rio Iguaçu é um dos mais instáveis que a gente conhece, e o mesmo mirante entrega cenas completamente diferentes em dois meses seguidos.

MarcoVazãoO que significa
9 de junho de 201446.300 m³/srecorde histórico — cerca de 30× a média; passarelas fechadas
1983~35.000 m³/srecorde anterior; a passarela do lado brasileiro foi atingida
Média histórica1.500 m³/so cartão-postal clássico
Estiagem fortefração da médiaa rocha aparece, o barulho some, a foto muda de assunto

Vazão não é bom nem ruim — é personalidade. Cheia entrega força bruta; seca entrega a geologia à mostra.

Cataratas do Iguaçu em cheia, com água barrenta e névoa densa cobrindo o cânion
fig. IIDia de cheia: a água vem barrenta, a névoa engole o cânion e o som passa a ser sentido no peito, não só ouvido.

O medidor fica em vazão das Cataratas ao vivo. E, se quiser ver com os próprios olhos antes de viajar, a mesma página traz a câmera ao vivo do parque argentino, apontada para o Salto San Martín.

ATO · III

A gente

Muito antes de 1542 · o nome já era indígena

Quem já estava aqui quando o espanhol chegou

O nome das quedas não é espanhol nem português. Vem do guarani: y, água, e guasu, grande. Água grande. Quem batizou foi quem morava ali muito antes de qualquer expedição europeia — os Guarani e, mais ao sul e leste, os Kaingang, povos que ocupavam a bacia do Iguaçu havia séculos.

Desse mundo vem também a explicação mais bonita que já se deu para a paisagem: a lenda de Naipi e Tarobá, em que o rio se rasga porque uma serpente enfurecida partiu o curso da água ao meio para separar dois apaixonados. Contamos essa história inteira na página das Cataratas brasileiras — e ela merece ser lida antes da visita, porque muda o que você vê do mirante.

31 de janeiro de 1542: o espanhol que tropeçou nas quedas

Álvar Núñez Cabeza de Vaca não veio de barco pelo rio. Veio a pé. Nomeado adelantado da região do Rio da Prata, desembarcou no litoral de Santa Catarina e resolveu atravessar por terra até Asunción, seguindo caminhos indígenas — entre eles o Peabiru. Foi nessa travessia que, em 31 de janeiro de 1542, ele se tornou o primeiro europeu registrado a ver as Cataratas.

Conta-se que, diante das quedas, ele as batizou de Salto de Santa María. O nome não vingou: o guarani venceu o espanhol, e é y-guasu que sobreviveu. Hoje quem carrega o nome dele é um dos saltos do lado argentino.

Retrato de Álvar Núñez Cabeza de Vaca, explorador espanhol que avistou as Cataratas do Iguaçu em 31 de janeiro de 1542
fig. IIICabeza de Vaca chegou a governador em Asunción em março de 1542. Durou pouco: foi deposto em 1544, entre outras razões por se recusar a escravizar indígenas.

ATO · IV

O parque

1916 · 1939 · 1986 · 2011 — quatro datas que salvaram a paisagem

Santos Dumont, seis dias a cavalo e um decreto

Em abril de 1916, o homem mais famoso do Brasil apareceu na fronteira. Alberto Santos Dumont vinha de uma conferência de aeronáutica no Chile, passou por Buenos Aires e resolveu fazer um desvio que ninguém do seu tamanho fazia na época: conhecer as Cataratas. Chegou a Puerto Aguirre — a atual Puerto Iguazú — no dia 22, e viu as quedas primeiro pelo lado argentino.

Foi então que o hoteleiro Frederico Engel, pioneiro do turismo em Vila Iguassú, soube da presença dele e organizou uma comitiva para trazê-lo ao lado brasileiro. Em 24 de abril de 1916 Santos Dumont atravessou o rio e se hospedou no Hotel Brasil. E descobriu algo que o incomodou profundamente: aquelas terras tinham dono. Um só. O uruguaio Jesús Val decidia quem entrava e quem não entrava para ver as Cataratas.

Ele não esperou a próxima caravana. Partiu de Vila Iguassú acompanhado de dois homens, seguindo a linha do telégrafo pela mata fechada rumo a Guarapuava. Foram seis dias a cavalo. Em 8 de maio de 1916, Santos Dumont foi recebido em Curitiba pelo presidente do estado do Paraná, Affonso Camargo, e apresentou o pedido: desapropriar as terras das Cataratas e criar um parque público.

Funcionou. Em 28 de julho de 1916 — menos de três meses depois da reunião — foi assinado o Decreto estadual nº 653, desapropriando 1.008 hectares e declarando a área de utilidade pública. É o ato fundador de tudo o que veio depois. E há um desdobramento que quase ninguém sabe: em 2012, a Lei 12.625 escolheu justamente o 8 de maio, o dia daquela audiência em Curitiba, como Dia Nacional do Turismo.

Estátua de bronze em tamanho real de Santos Dumont ao fim da Trilha das Cataratas, com o rio Iguaçu e a névoa das quedas ao fundo
fig. IVA estátua de bronze em tamanho real ao fim da Trilha das Cataratas, inaugurada em 1979 — ele é o padrinho do parque, e o único homenageado assim lá dentro.

1939: o segundo parque nacional do Brasil

A proteção estadual de 1916 cobria pouco mais de mil hectares. O salto de escala veio 23 anos depois: em 10 de janeiro de 1939, o Decreto-Lei nº 1.035, assinado por Getúlio Vargas, criou o Parque Nacional do Iguaçu. Foi o segundo do país — o primeiro tinha sido Itatiaia, em junho de 1937, também no governo Vargas.

Hoje o parque tem 185.262,5 hectares, alcança 14 municípios paranaenses e é administrado pelo ICMBio. Só uma fração mínima disso é aberta à visitação: a Trilha das Cataratas tem cerca de 1,5 km. Todo o resto — a imensa maioria — é floresta fechada, sem turista, que existe para que a floresta continue existindo.

1986: Patrimônio Mundial da UNESCO

Em 1986 o Parque Nacional do Iguaçu entrou na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO por dois critérios: o (vii), de beleza natural e fenômeno excepcional, e o (x), de conservação da biodiversidade. Do outro lado da fronteira, o Parque Nacional Iguazú já tinha recebido o mesmo título dois anos antes, em 1984.

São dois títulos e dois parques, mas uma floresta só — e vale fazer a conta, porque quase ninguém faz. O lado argentino é bem menor: o Parque Nacional Iguazú, criado em 1934, tem pouco mais de 67 mil hectares, contra os 185.262,5 do brasileiro.

ParqueCriaçãoÁreaPatrimônio Mundial
Parque Nacional do Iguaçu (Brasil)10/01/1939185.262,5 ha1986
Parque Nacional Iguazú (Argentina)1934mais de 67 mil ha (67.620 ha)1984
Os dois juntos~253 mil ha somando as áreas legais · ~240 a 244 mil ha quando se mede o bloco de floresta contínuadois títulos, uma floresta

Por que a soma não fecha redonda: 185.262 + 67.620 dá cerca de 252,9 mil hectares, mas a UNESCO descreve o conjunto como “cerca de 240 mil hectares” e o ICMBio cita ~244 mil. São recortes diferentes — área legal de cada unidade × bloco florestal contínuo. Preferimos publicar a faixa e a explicação a inventar um número único.

De qualquer forma, o que importa é a ordem de grandeza: um quarto de milhão de hectares de Mata Atlântica do interior, sem cerca no meio, num bioma que perdeu a maior parte do que tinha. É por isso que a comparação entre o lado brasileiro e o argentino não é só sobre vista: são dois pedaços da mesma coisa.

1999–2001: quando quase perdemos o título

A parte da história que os folhetos não contam. Uma estrada aberta décadas antes cortava o parque ao meio — a Estrada do Colono, com quase 18 quilômetros dentro da unidade. Além do atropelamento de fauna, ela partia a floresta em dois blocos e servia de porta para caça e extração ilegal.

Em 1999, por causa das tentativas de reabertura, a UNESCO colocou o Parque Nacional do Iguaçu na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo. A estrada foi fechada por decisão da Justiça Federal, e só então, na sessão de 2001 do Comitê do Patrimônio Mundial, em Helsinque, o parque saiu da lista de perigo. Foram dois anos em que o título mais valioso da região esteve pendurado por um fio.

11 de novembro de 2011: Maravilha da Natureza

A votação mundial da fundação New7Wonders terminou em 11 de novembro de 2011, e as Cataratas do Iguaçu entraram na lista das sete maravilhas naturais do mundo — ao lado da Amazônia, da Baía de Ha Long, da Ilha de Jeju, de Komodo, do Rio Subterrâneo de Puerto Princesa e da Table Mountain. Não é um título das Nações Unidas, é de uma fundação privada, escolhido por voto popular. Mas o efeito sobre o turismo da fronteira foi real e imediato.

AnoO que aconteceu
~137–127 milhões de anos atrásderrames de lava formam o platô de basalto da Serra Geral
1,8–1,5 milhão de anos atrásas quedas nascem do ajuste do Iguaçu ao vale do Paraná
Séculos antes de 1500Guarani e Kaingang ocupam a bacia; o nome y-guasu é deles
31/01/1542Cabeza de Vaca é o primeiro europeu a registrar as Cataratas
24/04/1916Santos Dumont visita o lado brasileiro e descobre que a área é privada
08/05/1916audiência com Affonso Camargo em Curitiba — hoje, Dia Nacional do Turismo
28/07/1916Decreto estadual nº 653 desapropria 1.008 hectares
10/01/1939Decreto-Lei nº 1.035 cria o Parque Nacional do Iguaçu
1986UNESCO inscreve o parque como Patrimônio Mundial (critérios vii e x)
1999–2001parque na Lista em Perigo por causa da Estrada do Colono
11/11/2011Cataratas eleitas uma das 7 Maravilhas da Natureza

Onze datas — três geológicas, oito humanas — que explicam por que a paisagem ainda está de pé.

ATO · V

A vida

185 mil hectares · o último grande refúgio de onça da Mata Atlântica

O que vive dentro do parque

A paisagem é o cartão de visita, mas o motivo real de o parque existir é o que anda embaixo das árvores. A vegetação dominante é Floresta Estacional Semidecidual — a Mata Atlântica do interior — e nas partes mais altas, acima dos 800 metros, aparecem trechos de Floresta Ombrófila Mista, a mata de araucária.

GrupoEspécies registradas
Plantas terrestresmais de 700
Mamíferos158
Aves390
Peixes175
Répteis48
Anfíbios12
Invertebradosao menos 800 — só de borboletas, a estimativa passa de 800 espécies

Números do levantamento oficial do ICMBio para o Parque Nacional do Iguaçu. São registros — a lista real tende a ser maior.

A onça-pintada: o número que mais importa

Se existe um indicador de que a floresta está viva, é a onça-pintada. Ela é o topo da cadeia: só sobrevive onde há presa, área grande e pouca pressão humana. E a região aqui é um dos últimos lugares da Mata Atlântica em que ela ainda tem chance.

O Projeto Onças do Iguaçu, em parceria com o Proyecto Yaguareté argentino, faz censos a cada dois anos cobrindo 582 mil hectares nos dois países — a área conhecida como Corredor Verde. A história que os números contam é dura no começo e boa no fim: por volta de 2005, a estimativa era de apenas 40 onças em todo o corredor. Em 2016, o número tinha dobrado, chegando a cerca de 90. Em 2020, seguia estável nessa faixa. Dentro do parque brasileiro, a estimativa é de cerca de 24 animais.

Os quatis (e por que comida é violência)

Esses você vai ver. Os quatis circulam pela área de visitação, não têm medo nenhum de gente e são, de longe, a fonte número um de confusão no parque. Alimentar é proibido — e a razão não é burocrática.

  • O quati que recebe comida perde o comportamento natural de forrageio e passa a depender do turista.
  • Ele fica agressivo por comida: avança em mochila, sacola e mão estendida.
  • Ele fica obeso e adoece com alimento humano — pão, salgadinho e refrigerante não fazem parte da dieta de um coati.
  • Mordida e arranhadura trazem risco de raiva, doença fatal quando não tratada.

A regra prática que a gente repete para todo mundo antes de descer do carro: mochila fechada, comida guardada, nada de lanche na mão dentro da trilha, e nunca, em hipótese alguma, oferecer algo para ver o bicho chegar perto.

Os macacos-prego e o resto do elenco

Os macacos-prego vivem em grupos que chegam a 40 indivíduos e comem praticamente tudo: frutas, sementes, flores, insetos, ovos, brotos. Assim como os quatis, aprenderam que perto de gente aparece comida — e vale exatamente a mesma regra.

Além deles, o parque abriga espécies que constam nas listas de ameaça: onça-pintada, puma, jacaré-de-papo-amarelo, gavião-real e a araucária, uma árvore com linhagem que remonta ao Jurássico e que hoje é criticamente ameaçada. Se você quiser ver a fauna alada de perto e com calma, o lugar certo não é a trilha — é o Parque das Aves, que fica em frente ao parque e trabalha com resgate e reprodução de aves ameaçadas.

Trilha em meio à Mata Atlântica densa em Foz do Iguaçu, com vegetação fechada dos dois lados
fig. VA Mata Atlântica do interior que cobre o parque — esta foto é da trilha do Parque das Aves, vizinho ao Parque Nacional e no mesmo bioma.

Como ver essa história com os próprios olhos

Dá para percorrer os cinco atos deste texto em um único dia dentro do parque, se você souber o que está olhando.

  1. A pedra: no primeiro mirante da trilha, olhe para o degrau escuro sob a água — aquilo é o topo de um derrame de 130 milhões de anos.
  2. O rio: da passarela, olhe rio abaixo. O cânion estreito por onde a água some é o caminho que a queda já percorreu recuando.
  3. A gente: leia a lenda de Naipi e Tarobá antes de chegar. A serpente do mito ocupa exatamente o lugar do cânion.
  4. O parque: no fim da trilha está a estátua de Santos Dumont. Vale parar dois minutos ali — é o marco do porquê de você poder estar naquele lugar.
  5. A vida: no caminho de volta, olhe para cima. Tucano, gavião e o bando de quati atravessando a passarela são a parte visível dos 185 mil hectares.

Se der para esticar, o Macuco Safari entra por baixo das quedas de bote e mostra a parede de basalto de perto — é a aula de geologia mais molhada que existe. E do outro lado da fronteira, as Cataratas argentinas colocam você dentro da Garganta do Diabo, no ponto exato onde o degrau é mais alto.

É essa a parte que a gente mais gosta de contar dentro do carro, na subida para o parque: aquilo tudo esteve nas mãos de um proprietário particular em 1916, e esteve na lista de risco da UNESCO em 1999. Nenhum dos dois desfechos era inevitável. O mirante existe porque teve gente que não aceitou a alternativa.